“Para exercitar o olhar”

Diante de uma disciplina nova cabe sempre um desafio e uma aprendizagem. Foi isto que se apresentou a mim a partir da criação de um tempo de aula destinado apenas à interpretação de textos e seus desdobramentos. Não bastava apenas reproduzir a tradicional apresentação de um poema, charge, narrativa ou canção, seu esgotamento com discussões e perguntas. Não bastava a atitude professoral daquele que detém o saber e o deposita magnanimamente entre os jovens. Aliás, não bastava nem mesmo a fruição de uma tessitura de palavras, sons ou imagens. Por isto, imaginei o processo inverso. Por que não criar textos variados a partir da realidade em sua crueza e força? Por que não fazer brotar nos meninos e meninas aquilo que eles e elas já possuem e, muitas vezes, a escola se encarrega de silenciar: sua criatividade e imaginação? Por que não ousar e desafiá-los a exercitar o olhar sobre o real de múltiplas e variadas formas? De todas estas indagações e reflexões surgiu a seguinte proposta de trabalho: ler o mundo a partir de muitas  maneiras e modos. E assim se fez, ou melhor, e assim os alunos da 3ª série do Ensino Médio do INSP fizeram com competência, talento e responsabilidade.

O ponto de partida foi a capa do jornal “O Globo”, de 28/01/13, que expunha através de uma matéria jornalística, de um poema, de algumas fotos e de uma charge a tragédia dos jovens mortos e feridos na boate “Kiss”. A multiplicidade de abordagens foi apresentada à turma. Comentamos  superficialmente sobre o fato em si e sobre a diferença entre texto literário e texto não literário. Após este momento inicial, a turma foi dividida em grupos de trabalho que teriam que produzir diferentes tipos de releituras dos fatos em análise. Inicialmente, sugeri os seguintes modos de expressão: um comercial publicitário, uma música, um poema, uma charge ou caricatura e um esquete teatral. A adesão dos elementos era voluntária de acordo
com suas aptidões e desejos. Desta forma, foram criadas equipes responsáveis pela feitura das diferente modalidades textuais. Foram iniciadas as atividades e, no decorrer da aula, três dos grupos resolveram se unir para a montagem de um comercial que contasse com representação e com uma trilha sonora. Tudo foi brilhantemente desenvolvido em sala e, na semana seguinte, apresentado ao restante da turma.

Após a apresentação dos trabalhos, devidamente documentada pelo Departamento de Comunicação e Marketing do INSP, o rico material produzido pela turma servirá de suporte para o trabalho pedagógico que visa ludicamente exercitar o olhar sobre o mundo circundante.
Isto sim é ler e interpretar, dar um formato pessoal ao que se apresenta diante dos olhos ávidos pelo saber. Encerro este breve relato com alguns dos versos da canção composta por Gabriel Miguel e Leonardo Salles, um dos exemplos contundentes e mágicos da leitura do real inventados pelos artistas/alunos da turma 3.001:

“Há falta de bom senso,/excesso de ambição./Todos dizem que somos/o futuro da nação./
Vidas em jogo/largadas ao chão./E todos dizem que somos/o futuro da nação.”

Parabéns a todos! Sigamos tecendo e desvendando textos, fatos, imagens, realidades!

por Claudia Marques dos Anjos – Professora de Literatura do Ensino Médio do INSP)

 

 

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